educação infantil

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orientação familiar e pedagógica

“Atenção, pais, dá para remar 
contra a maré.”

Rosely Sayão

 

Que a infância tem sido, de vários
modos, roubada de nossas crianças,
dá para perceber. Basta dar uma
olhada um pouco mais cuidadosa no
modo de viver delas que logo
identificamos o estilo adulto:
compromissos fixos semanais, além da
escola, agenda a cumprir, horário
apertado, falta de tempo para brincar
e para não fazer nada, anseios e
pressões da vida social, e isso só
para citar alguns exemplos.
Mas, de alguns detalhes dessa 
história, só mesmo pais e mães 
com filhos pequenos conseguem 
ter a exata dimensão. 
Recebi uma correspondência
muito interessante de uma leitora 
que é mãe de uma menina de 5 anos.
Ela conta que saiu com o marido 
para uma compra aparentemente 
simples: uma sandália para a filha 
usar no verão.
O que parecia fácil tornou-se motivo 
de receio, indignação e reflexão.
Não é que todas as sandálias
encontradas no tamanho usado pela
garota têm salto? Existem sandálias
com salto plataforma, com salto
anabela, com saltinho e com saltão.
Mas sandália para a menina correr,
pular, virar cambalhota, saltar, nada!
Ou seja, é difícil encontrar sandália
para criança porque agora menina
tem de se vestir como mulher.

Depois de ler essa correspondência,
conversei com outras mães de 
meninas, e elas confirmaram a 
mesma dificuldade.
Para resolver a situação, a saída
encontrada por algumas delas foi
comprar um tipo de sandália chamada
papete, muito confortável, mas
originalmente feita para os meninos.
Então, quer dizer que menino tem o
direito de ser moleque, correr e saltar,
mas menina não? Menina tem
de aprender a se vestir como
mulher desde cedo?

 

Claro que as meninas simplesmente 
adoram brincar de se vestir de mamãe,
de colocar sapato de salto, de passar
esmalte e batom. Meninos também,
é bom saber. Mas o que deveria ser
uma simples e gostosa brincadeira
de faz de conta de ser gente grande, 
virou obrigação. O que deveria ser 
exceção tornou-se regra. Será que
os fabricantes responderam a uma 
demanda do mercado provocada, 
sabe-se lá por quais motivos, ou 
será que as mães foram obrigadas a 
aceitar essa moda para suas filhas? 
O que veio primeiro não importa tanto, 
mas o fato é que hoje a mãe que quer 
uma filha vestida como criança tem 
dificuldade para se virar, e não apenas 
no que diz respeito aos calçados. 
As sandálias de salto alto para 
meninas de 5 anos são apenas um 
sinal de que a infância está sendo 
assaltada pelo mundo
adulto por todos os lados.

Uma criança de 9 ou 10 anos, por
exemplo, se gosta de brincar de
boneca—o que era muito comum há
um tempo—, hoje vai ter dificuldade.
Em primeiro lugar, como contou
nossa leitora e pude comprovar, a
maioria das roupas para garotas
dessa idade não facilita em nada
que ela se sente no chão, se esparrame,
fique à vontade. Afinal, calça jeans
justa e de cintura baixa, top, minissaia
ou vestido decotado são roupas que
exigem cuidados especiais na postura.
Em segundo lugar, a garota dessa
idade vai se sentir constrangida, pois
nem é mais considerada criança, e
sim pré-adolescente. Brincar de
boneca, então, passa a ser coisa para
ser feita às escondidas. Nossa leitora, e
muitas outras mães, não são
saudosistas: não querem para as filhas
a mesma infância que tiveram.
Elas sabem que o mundo mudou.
Mas será que não é possível hoje que
as crianças possam ser crianças?
É possível, sim, e o papel dos pais,
para tanto, é fundamental. A exemplo
dessa mãe que nos escreveu, muitas
outras lutam para preservar a infância
dos filhos, seja no modo de se vestir, 
seja no modo de viver.
A coisa mais importante na vida da
criança continua sendo a brincadeira.
E, para isso, ela precisa estar à
vontade e ter tempo. Não é pequeno o
número de pais que oferecem essas
condições aos filhos. Para que eles
continuem a árdua empreitada,
é bom saber que não são minoria,
que não estão sozinhos. Para os que
já desistiram, é bom saber que,
apesar do trabalho exigido,
dá para remar contra a maré.

Rosely Sayão é psicóloga, consultora
em educação e autora de Sexo É Sexo
(ed. Companhia das Letras)
E-mail: roselys@uol.com.br

Folha de S.Paulo 
Folha Equilíbrio,
29 de novembro de 2001